quarta-feira, 8 de abril de 2009

Márgens...o outro lado


Lembro-me de ser criança ir passear com os meus pais e os meus avós, costumava-mos passar pela zona do terreiro do paço, cais sodre..., lembro-me de olhar para o Tejo e ver lá um barco enorme.
O Tolan, um porta-contentores Inglês, ficou ali alguns anos, meio afundado, servindo de companheiro ao rio que o acolheu, ás gaivotas que nele poisavam e faziam os seus ninhos, ás fotos dos turistas e de todos que vinham á cidade por uma razão ou outra, uma espécie de atração da cidade de Lisboa.
São memórias difusas, com grão e ruido e uma leve sensação de ser tudo a preto e branco, como nos filmes antigos ou na televisão que ainda havia lá em casa.

Hoje apanho o comboio, sento-me junto a janela e espero que o caminho até casa seja o mais rapido possivel. As pessoas vão entrando, tomando os seus lugares, cheias de pressa como eu, mandam e recebem mensagens, falam e ouvem ao telemovel, leem revistas, livros da escola, crianças que riem e choram, é vida que transborda por entre as carruagens.
Na viagem o mais engraçado é passar a ponte, poder ver Lisboa cá de cima, observar os telhados dos prédios, os terraços arranjados com flores, o corropio que passa bem embaixo de nós, o sol que se vai pondo para dar fim a mais um dia.

Sinto o cheiro do Tejo, encosto-me á janela a olhar para o seu manto de água, deixo-me levar pelo seu brilho, pelas marés que vão lutando entre si, umas vezes sózinhas, outras com a ajuda dos caçilheiros. Tento prolongar aquele minuto o mais possivel, penso no Tolan, em todas as vezes que de mão dáda ao meu avô ele me levava para junto da margem e me contava historias de como o barco ali tinha ido parar, como tinha afundado e entre as verdades ele sempre fantasiava e eu ficava ali, a ouvi-lo, quieto, quase sem respirar, apertando-lhe a mão e imaginando mil aventuras de piratas, mil sonhos de criança.

Lá em cima na ponte a viagem continua, sem parar, sem olhar para tráz, há horarios a cumprir, viagens a fazer, passageiros como eu que estaõ ávidos por chegar a casa e descansar, tirar os sapatos, tomar um banho e por os chinelos para ir fazer o jantar. Fugir do dia a dia da cidade e por umas horas ter paz, sossego, tempo para nos recompormos para o dia que vem já a seguir.

Quando passo a ponte para ir para casa, todas essas memórias me chegam, pensava mesmo que as teria esquecido, nem me lembrava delas. Agora que moro na outra márgem, no outro lado de mim, é que elas voltaram, fico contente por isso, penso que se há alturas em que podemos ser realmente felizes é quando somos crianças, livres de espirito, sem correntes e com uma esperança que ultrapassa tudo.

Faz-me esquecer, mesmo que por breves momentos, tudo o que se tem passado comigo nos ultimos tempos. Dá-me uma pequena esperança de que o dia de amanha seja melhor, que eu consiga alcançar os objectivos que proponho a mim mesmo e que a tempestade possa passar o mais rapido possivel.

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